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Amor
Amemos!
Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu’alma, em teus
encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!
Quero
em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!
Vem,
anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!
Autor:
Álvares de Azevedo
Acordar Viver
Como
acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não
existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.
Como repetir, dia seguinte
após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança
das coisas ásperas
de amanhã com as coisas
ásperas de hoje?
Como
proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me
inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não
sou?
Ninguém
responde, a vida é
pétrea.
Autor:
Carlos Drummond de Andrade
As Sem-razões do Amor
Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor
é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu
te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se
troca,
não se conjuga nem
se ama.
Porque amor é amor
a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor
é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor
Autor:
Carlos Drummond de Andrade
José
E agora, José?
A festa acabou,
a luz acabou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora José?
e agora você?
você que é sem
nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está
sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode
beber,
já não pode
fumar,
cuspir já não
pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E
agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio-e agora?
Com
a chave na mão,
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há
mais.
José, e agora?
Se
você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não
morre,
você é duro,
José.
Sozinho
no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Autor:
Carlos Drummond de Andrade
É preciso não
esquecer nada
É
preciso não esquecer
nada:
nem a torneira aberta nem
o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração
de cada instante.
É preciso não
esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é
esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa
voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer
é o dia carregado de
atos,
a idéia de recompensa
e de glória.
O que é preciso é
ser como se já não
fôssemos,
vigiados pelos próprios
olhos
severos conosco, pois o resto
não nos pertence.
Autor: Cecília Meireles
Mapa de Anatomia: O Olho
O
Olho é uma espécio
de globo,
é um pequeno planeta
com pinturas do lado de fora.
Muitas pinturas:
azuis, verdes, amarelas.
É um globobrilhante:
parece cristal,
é como um aquário
com plantas
finamente desenhadas: algas,
sargaços,
miniaturas marinhas, areias,
rochas,
naufrágios e peixes
de ouro.
Mas
por dentro há outras
pinturas,
que não se vêem:
umas são imagens do
mundo,
outras são invetadas.
O
Olho é um teatro por
dentro.
E às vezes, sejam atores,
sejam cenas,
e às vezes, sejam imagens,
sejam ausências,
formam, no Olho, lágrimas.
Autor:
Cecília Meireles
Soneto da Separação
De repente do riso fez-se
o pranto
Silencioso e branco como a
bruma
E das bocas unidas fez-se
a espuma
E das mãos espalmadas
fez-se o espanto.
De
repente da calma fez-se o
vento
Que dos olhos desfez a última
chama
E da paixão fez-se
o pressentimento
E do momento imóvel
fez-se o drama
De
repente, não mais que
de repente
Fez-se de triste o que se
fez amante
E de sozinho o que se fez
contente
Fez-se
do amigo próximo o
distante
Fez-se da vida uma aventura
errante
De repente, não mais
que de repente.
Autor:
Vinicius de Moraes
Soneto da Fidelidade
De tudo ao meu amor serei
atento
Antes e com tal zelo e sempre
e tanto
Que mesmo em face do maior
encanto
Dele se encante mais meu pensamento
Quero
vive-lo em cada vão
momento
E em seu louvor hei de espalhar
meu canto
E rir meu riso e derramar
meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E
assim quando mais tarde me
procure
Quem sabe a morte, angústia
de quem vive
Quem sabe a solidão,
fim de quem ama
Eu
possa lhe dizer do amor que
tive
Que não seja imortal,
posto que é chama
Mas, que seja infinito enquanto
dure.
Autor:
Vinicius de Moraes
Soneto
VI
Brandas ribeiras, quanto estou
contente
De ver-vos se isto é
verdade!
Quanto me alegra ouvir a suavidade,
Com que Fílis entoa
a voz cadente!
Os
rebanhos, o gado, o campo,
a gente,
Tudo me está causando
novidade:
Oh! como é certo que
a cruel saudade
Faz tudo, do que foi, mui
diferente!
Recebei
( eu vos peço ) um
desgraçado,
Que andou té afora
por incerto giro,
Correndo sempre atrás
do seu cuidado:
Este
pranto, estes ais com que
respiro,
Podendo comover o vosso agrado,
Façam digno de vós
o meu suspiro.
Autor:
Cláudio Manuel da Costa
As Estrelas
Lá,
nas celestes regiões
distantes,
No fundo melancólico
da Esfera,
Nos caminhos da eterna Primavera
Do amor, eis as estrelas palpitantes.
Quantos
mistérios andarão
errantes,
Quantas almas em busca de
Quimera,
Lá, das estrelas nessa
paz austera
Soluçarão, nos
altos céus radiantes.
Finas
flores de pérolas e
prata,
Das estrelas serenas se desata
Toda a caudal das ilusões
insanas.
Quem
sabe, pelos tempos esquecidos,
Se as estrelas não
são os ais perdidos
Das primitivas legiões
humanas?!
Autor:
Cruz e Sousa
Em Sonhos ...
Nos
santos óleos do luar,
floria
Teu corpo ideal, com o resplendor
da Helade
E em toda a etérea,
branda claridade
Como que erravam fluidos de
harmonia...
As
Águias imortais da
Fantasia
Deram-te as asas e a serenidade
Para galgar, subir à
Imensidade
Onde o clarão de tantos
sóis radia.
Do
espaço pelos límpidos
velinos
Os Astros vieram claros, cristalinos,
Com chamas, vibrações,
do alto, cantando...
Nos
santos óleos do luar
envolto
Teu corpo era o Astro nas
esferas solto,
Mais sóis e mais Estrelas
fecundando!
Autor:
Cruz e Sousa
A Flor do Maracujá
Pelas
rosas, pelos lírios,
Pelas abelhas, sinhá,
Pelas notas mais chorosas
Do canto do Sabiá,
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá
!
Pelo
jasmim, pelo goivo,
Pelo agreste manacá,
Pelas gotas de sereno
Nas folhas do gravatá,
Pela coroa de espinhos
Da flor do maracujá.
Pelas
tranças da mãe-d'água
Que junto da fonte está,
Pelos colibris que brincam
Nas alvas plumas do ubá,
Pelos cravos desenhados
Na flor do maracujá.
Pelas
azuis borboletas
Que descem do Panamá,
Pelos tesouros ocultos
Nas minas do Sincorá,
Pelas chagas roxeadas
Da flor do maracujá
!
Pelo
mar, pelo deserto,
Pelas montanhas, sinhá
!
Pelas florestas imensas
Que falam de Jeová
!
Pela lança ensangüentado
Da flor do maracujá
!
Por
tudo que o céu revela
!
Por tudo que a terra dá
Eu te juro que minh'alma
De tua alma escrava está
!!..
Guarda contigo este emblema
Da flor do maracujá
!
Não
se enojem teus ouvidos
De tantas rimas em - a -
Mas ouve meus juramentos,
Meus cantos ouve, sinhá!
Te peço pelos mistérios
Da flor do maracujá!
Autor:
Fagundes Varela
Análise
Tão abstrata é
a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que,
ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os
de vista,
E nada fica em meu olhar,
e dista
Teu corpo do meu ver tão
longemente,
E a idéia do teu ser
fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e
ao saber-me
Sabendo que tu és,
que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim
sinto.
E assim, neste ignorar-me
a ver-te, minto
A ilusão da sensação,
e sonho,
Não te vendo, nem vendo,
nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que
sou, risonho
Do interior crepúsculo
tristonho
Em que sinto que sonho o que
me sinto sendo.
Autor:
Fernando Pessoa
Ausência
Eu
deixarei que morra em mim
o desejo de amar os teus olhos
que são doces
Porque nada te poderei dar
senão a mágoa
de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença
é qualquer coisa como
a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto
existe o teu gesto e em minha
voz a tua voz.
Não te quero ter porque
em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas
em mim como a fé nos
desesperados
Para que eu possa levar uma
gota de orvalho nesta terra
amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne
como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás
e encostarás a tua
face em outra face.
Teus dedos enlaçarão
outros dedos e tu desabrocharás
para a madrugada.
Mas tu não saberás
que quem te colheu fui eu,
porque eu fui o grande íntimo
da noite.
Porque eu encostei minha face
na face da noite e ouvi a
tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram
os dedos da névoa suspensos
no espaço.
E eu trouxe até mim
a misteriosa essência
do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como
os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém
porque poderei partir.
E todas as lamentações
do mar, do vento, do céu,
das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente,
a tua voz ausente, a tua voz
serenizada.
Autor:
Vinicius de Moraes
Desalento
Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu chorei
Que eu morri
De arrependimento
Que o meu desalento
Já não tem mais
fim
Vai e diz
Diz assim
Como sou
Infeliz
No meu descaminho
Diz que estou sozinho
E sem saber de mim
Diz
que eu estive por pouco
Diz a ela que estou louco
Pra perdoar
Que seja lá como for
Por amor
Por favor
É pra ela voltar
Sim,
vai e diz
Diz assim
Que eu rodei
Que eu bebi
Que eu caí
Que eu não sei
Que eu só sei
Que cansei, enfim
Dos meus desencontros
Corre e diz a ela
Que eu entrego os pontos
Autor:
Vinicius de Moraes
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