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Orgulho
gaúcho
No
sul quando nasce o dia
Nasce também a magia,
Esta estranha alegria,
Que se tem ao respirar.
Cevo
um mate amargo
Do lado do meu amado,
Em silêncio uma oração
Agradece meu coração.
Agradeço
minha terra
Meu pampa sul-riograndense,
O Patrão velho lá
no céu
Por certo está contente.
Por
ver tanto orgulho
Pela sua criação,
Que traz cada gaúcho
Dentro do seu coração.
Sou
gaúcha, e isso é
certo!
Trago a chama da emoção,
O amor por esta terra
Honrando sua tradição.
Reconheço
a beleza
Da nossa amada querência,
Ressalta a consciência
Da minha essência gaúcha.
Fiel
às suas tradições
E disso, não abro mão!
Churrasco campeiro...
Fogo de chão...
E um gostoso chimarrão
Nos braços do meu peão.
Autor:
Inoema Nunes Jahnke
Amargo
Velha infusão gauchesca
De topete levantado
O porongo requeimado
Que te serve de vazilha
Tem o feitio da coxilha
Por onde o guasca domina,
E esse gosto de resina
Que não é amargo
nem doce
É o beijo que desgarrou-se
Dos lábios de alguma
china!
A
velha bomba prateada
Que atrás do cerro
desponta
Como uma lança de ponta
Encravada no repecho
Assim jogada ao desleixo
Até parece que espera
O retorno de algum cuera
Esparramado do bando
Que decerto anda peleando
Nalgum rincão de tapera!
Velho
mate-chimarrão
As vezes quando te chupo
Eu sinto que me engarupo
Bem sobre a anca da história,
E repassando a memória
Vejo tropilhas de um pêlo
Selvagens em atropelo
Entreverados na orgia
Dos passes de bruxaria
Quando o feiticeiro inculto
Rezava o primeiro culto
Da pampeana liturgia!
Nessa
lagoa parada
Cheia de paus e de espuma
Vão cruzando uma, por
uma,
Antepassadas visões
Fandangos e marcações
Entreveros e bochinchos
Clarinadas e relinchos
Por descampados e grotas,
E quando tu te alvorotas
No teu ronco anunciador
Escuto ao longe o rumor
De uma cordeona floreando
E o vento norte assobiando
Nos flecos do tirador!
Sangue
verde do meu pago
Quando o teu gosto me invade
Eu sinto necessidade
De ver céu e campo
aberto
É algum mistério
por certo
Que arrebentando maneias
Te faz corcovear nas veias
Como se o sangue encarnado
Verde tivesse voltado
Do curador das peleias!
Gaudéria
essência charrua
Do Rio Grande primitivo
Chupo mais um, pra o estrivo
E campo a fora me largo,
Levando o teu gosto amargo
Gravado em todo o meu ser,
E um dia quando morrer,
Deus me conceda esta graça
De expirar entre a fumaça
Do meu chimarrão querido
Porque então irei ungido
Com água benta da raça!!!
Autor:
Jayme Caetano Braun
Remorsos de Castrador
Um pealo - um tombo - grunhidos
de impotente rebeldia,
o sangue da cirurgia
No laço e no maneador.
Nada pra tapear a dor
do potro que --- sem saber,
perdeu a razão de ser
na faca do castrador.
Há
um bárbara eficiência
nessa rude medicina,
a faca é limpa na crina
que alvoroçada revoa,
pouco interessa que doa,
a dor faz parte da vida.
Há de sarar em seguida,
desde guri tem mão
boa.
Aprendeu
--- nem sabe como,
a estancar uma sangria.
Sem noções de
anatomia
é um cirurgião
instintivo
que --- por vezes --- pensativo,
afundou na realidade
da crua barbaridade
desse ritual primitivo.
Já
faz tempo --- muito tempo,
que um dia --- na falta doutro,
castrou seu primeiro potro,
um zaino negro tapado.
Que pena vê-lo castrado,
o entreperna coloreando
e os olhos recriminando,
num protesto amargurado.
Depois
do zaino --- um tordilho,
depois --- baios e gateados,
um por um sacrificados
pela faca carneadeira
e o rude altar da mangueira
a pedir mais sacrifícios
dos bravos fletes patrícios,
titãs de campo e fronteira.
Por
muitos e muitos anos
andou nos galpões do
pampa,
castrando pingos de estampa
com renomada experiência,
cavalos reis de querência,
parelheiros afamados,
pela faca condenados
a morrer sem descendência.
Às
vezes, durante a noite,
um pesadelo o volteia
e o remorso paleteia.
Castrador!... que judiaria!
E quando sem serventia
por aí deixar semente
no mundo onde há tanta
gente
pedindo essa cirurgia.
E
ali está --- defronte
ao rancho,
pastando o mouro do arreio,
pingo de campo e rodeio
que castrou --- quando potrilho.
O mouro --- mesmo que filho
do xirú velho campeiro,
o último companheiro
do seu viver andarilho.
Na
primavera --- outro dia,
um potranca lazona,
linda como temporona,
vestida em pelagem de ouro,
veio se esfregar no mouro,
mordiscando pelo e crina,
mais amorosa que china
num princípio de namoro!
E
o mouro? --- pobre do mouro!
Não pode ter namorada.
Veio, direto à ramada,
numa agonia sem fim,
olhando pro dono, assim,
num bárbaro desespero,
como dizendo: parceiro,
vê o que fizeste de
mim!!
Autor:
Jayme Caetano Braun
Tio Anastácio
Entre a Ponte e o Lajeado
Na venda do Bonifácio
Conheci o tio Anastácio
Negro velho já tordilho;
Diz que mui quebra em potrilho,
Hoje, pobre e despilchado,
De tirador remendado
Num petiço douradilho...
Quem
visse o tio Anastácio
Num bolicho de campanha
Golpeando um trago de canha
Oitavado no balcão,
Tinha bem logo a impressão
Que aquele mulato sério
Era o Rio Grande gaudério
Fugindo da evolução!
A
tropilha dos invernos
Tinha lhe dado uma estafa,
E aquela meia garrafa
Dentro do cano da bota
Contava a história
remota
Do negro velho curtido
Que os anos tinham vencido
Sem diminuir na derrota!
Mulato
criado guacho
Nos tempos da escravatura
Aquela estranha figura
Na vida passara tudo;
Ginetaço macanudo
Já desde o primeiro
berro
Saia trançando "ferro"
No potro mais colmilhudo!
Carneava
uma rês num upa
Com toda calma e perícia!
Reservado e sem maílicia,
Negro de toda a confiança,
Bemquisto na vizinhança,
Dava gosto num rodeio,
De pingo alçado no
freio
Pialando de toda a trança.
Tinha
cruzado as fronteiras
Da Argentina e do Uruguai;
Andara no Paraguai,
Peleando valentemente,
E voltara humildemente
Como tantos índios
tacos
Que foram vingar nos Chacos
A honra de nossa gente.
Caboclo
de qualidade
Que não corpeava uma
ajuda,
Na encrenca mais peleaguda
Sempre conservava o tino,
Garrucha boca de sino
Carregada com amor
E um facão mais cortador
Do que aspa de boi brasino!
Porém
depois que os janeiros
Foram ficando à distancia,
Andou de estância em
estância
E foi vivendo de changa:
Repontando bois de canga,
Castrando com muita sorte,
E em tempos de seca forte
Arrastando água da
sanga ...
Ficou
sendo um desses índios
Que se encontra nos galpões
E ao derredor dos fogões
Fala aos moços com
paciência
Do que aprendeu na existência,
Ao longo dos corredores,
Alegrias, dissabores,
Curtidos pela experiência!
Tio
Anastácio p'ra aqui;
Tio Anastácio p'ra
lá...
Mandado mesmo que piá
Por aquela redondeza;
Nos remendos da pobreza,
Entrava e passava inverno,
Como um tronco, só
no cerno,
Pelegueando a natureza!
Por
isso é que nos bolichos
Só se alegrava bebendo,
Como se cada remendo
Da velha roupa gaudéria
Fosse uma sangria séria
Por onde o sangue do pago
Se esvaísse, trago
a trago,
Por ver tamanha miséria!
E
até parece mentira
- Negro velho de valor -
Morreste no corredor
Como matungo sem dono;
Não tendo nesse abandono
Ao menos um companheiro
Que te estendesse o baixeiro
Para o derradeiro sono!
E
agora que estás vivendo
Na Estância grande do
Céu
Engraxando algum sovéu
P'ra o Patrão velho
buenacho,
Não te esquece aqui
de baixo
Onde a 'lo largo- inda existe
Muito xiru velho triste
Como tu, criado guacho!
Autor:
Jayme Caetano Braun
Retorno bravo
Ali
na porta do rancho, junto
ao cusquito nervoso,
o velho guasca orgulhoso olhava
o filho partir.
Também desejava ir
com a mesma disposição,
levando a lança na
mão, p'ra se unir aos
farroupilhas
e pelear pelas coxilhas em
defesa do rincão.
Porém
já velho e arquejado
perdera a força no
braço,
tinha no lombo o cansaço
do peso de muitos anos,
mas era um dos veteranos com
orgulho do passado,
por ter a lança empunhado
combatendo os castelhanos.
Que
gana tinha de ir, aquele velho
guerreiro,
de novo para o entrevero como
gaúcho pelear,
mas ficava a se orgulhar que
embora velho e cansado
tinha um filho ja criado partindo
no seu lugar.
E
ali na porta do rancho, cheio
de orgulho e pesar,
viu o filho se afastar com
garbo e disposição,
montando um flor de alazão,
o laço preso nos tentos,
o poncho revoando ao vento
e a lança firme na
mão.
Depois,
com a estrada deserta, a noite
foi se chegando,
o pampa foi silenciando nas
grotas e nos banhados
e o velho guasca cansado no
catre foi se arrimando,
em silêncio memoriando
entreveros do passado.
Assim,
a poeira dos dias cobriu o
catre vazio
do paisano que partiu do rancho
para a guerrilha,
levando na alma caudilha de
guasca continentino,
a fibra, a glória e
o tino de campeador farroupilha.
Já
muitos dias depois um xirú
trouxe a notícia:
- A farroupilha milícia
em que seu filho marchou
peleando se dizimou. Morreram
mas não recuaram
e entre os bravos que tombaram
dizem que o moço ficou.
Num
sentimento profundo o velho
ficou calado,
mas o seu rosto enrugado não
pode a dor esconder,
deixando livre correr, do
fundo da alma ferida,
uma lágrima sentida
que ele não pode conter.
Tristonha
caiu a noite e mais triste
a madrugada.
Latia ao longe a cuscada,
na quincha gemia o vento,
e sem dormir um momento, ali
no catre estirado,
o velho ficou atado na soga
do pensamento.
Lembrou
o filho em criança
correndo o pampa em retoço,
a melena em alvoroço
soprada ao vento pampeano.
Recordou ano por ano até
que o piá ficou moço
e ali da porta do rancho partiu
p'ra revolução,
montando um flor de alazão,o
laço preso nos tentos,
o poncho revoando ao vento
e a lança firme na
mão.
Estava
assim recordando, quando lá
fora um gemido
lhe fez apurar o ouvido e
despertar-lhe a atenção.
E quando ouviu uma mão,
naquela hora tão morta,
forcejar de encontro a porta
como querendo arrombá-la,
sua visão ficou clara,
voltando-lhe a luz e o brilho;
num ímpeto caudilho
a porta abriu com vigor
e estarreceu-se de horror
ante a figura do filho.
Cambaleante,
ensangüentado,
as vestes feitas em frangalhos,
o corpo cheio de talhos dobrado
pelo cansaço,
já sem força
em nenhum braço, já
sem poder ver direito,
e com o meio do peito aberto
por um lançaço.
Fitando
os olhos do filho o velho
ficou calado.
Estarrecido, espantado, vendo-o
ali em sua frente.
Então gritou gravemente:
- Meu filho, por que voltaste?
Por que?
Por que não tombaste
onde tombou nossa gente?
Maldito sejas, covarde, tu
já não és
mais meu filho!
Não tens o sangue caudilho,
não agüentaste
o repuxo,
deixaste teus companheiros,
fugiste dos entreveros,
tu já não és
mais gaúcho!
Então
a face do guasca que peleando
não tombou,
como um lançaço
estampou a ira do coração.
Prostrando-se rudemente, naquele
gesto inclemente,
desfalecido no chão,
o moço sentindo a morte
roubar-lhe o sopro da vida,
com a alma triste e ferida,
ali prostrado no chão,
sem rancor no coração
olhou para o pai a seu lado,
e já num último
brado
fez a brava confissão:
-
Meu pai, eu não fui
covarde,
honrei meu poncho e minha
adaga,
fiquei coberto de chagas mas
agüentei o repuxo.
Fui valente, fui gaúcho,
peleei com todo o ardor,
e se aqui vim escondido foi
p'ra salvar do inimigo
o pavilhão tricolor.
Abrindo
a camisa ao peito, tirou em
sangue banhado
aquele trapo sagrado que até
o fim defendeu,
e beijando-o estendeu ao pai,
num último esforço,
e depois, curvando o dorso,
o bravo guasca morreu.
Autor:
Carlos Bolli Mota
Mulher Pampiana
E
aqui estou eu meu gaudério
em tempos de guerra e paz
sou aquela que te espera
sem saber se tu virás
Nestes
serões solitários
entre agulhas de costura
e velhos livros que li
fui alinhando as idéias
alinhavando verdades
até que um dia entendi
Sou
a história repetida
eu já vivi outras vidas
eu já fui outras mulheres
antes de ser a que sou
Acho
que até fui Maria
Maria de Nazaré
De a cavalo, num burrinho,
com Jesusinho no colo
a seguir o bom José
Quanta
vez de tardezita
cevei o mate solita
e mateei bombeando
a estrada
Qualquer
nuvem de poeira
qualquer sinal de galope
já me acendia a esperança
mas que esperança,
que nada
Na
minha ingenuidade
era tudo o que eu queria
um rancho pra ser meu rancho
um peão pra ser meu
peão
filhos pra chamar meus filhos
um terreiro com galinha,
vassoura, fonte e fogão
Fui
das páginas da história
aos sonhos do faz de conta
na guerra, fui cabo toco
uma mulher que peleou
Fui
Anita e Ana Terra
fui a parda margarida
que pra casar com Inácio
fez pedido a Santo Antônio
prometendo uma capela
e uma cidade gerou
Fui
mãe de heróis
e teatinos
desposei peões e caudilhos
e nem esposos, nem filhos
reconheceram a seu tempo
minha fibra, meu valor
Quem
percorrer a querência
pelos caminhos da história
decerto me encontrará
Varrendo
um velho terreiro
ou assando pães no
forno
lavando roupas na sanga
costurando uma bombacha
ou tecendo um bichará
Acalentei
no meu colo
e amamentei no meu seio
o meu Rio Grande piá
Sem
queixas e sem lamentos
fiz das esperas motivo
para continuar vivendo
e deixando a vida passar
Por
que no fundo eu sabia
que quando daqui me fosse
uma filha ou uma neta
viveria em meu lugar
E
por justiça se diga
que nem tudo nessa vida
de simples mulher pampiana
tenha sido só tristezas,
trabalhos e desencantos
Eu
já dançei a
tirana
já bailei nas amadas
Já fui prenda cortejada
nos fandangos de galpão
Também
já fui disputada
em desafios de chula e
peleia de facão
Eu,
eu já vivi tantas vidas
Eu já fui tantas mulheres
e outras que por certo serei
Por
que aquela guriazita que
vês brincando de boneca
sem ver o tempo passar
já sou eu, antecipando
um
tempo que vai chegar
Muda
o tempo, muda a gente,
sou mulher independente,
forte, livre e emancipada
mas no fundo sou a mesma
Ainda
frágil, ainda fêmea
Ainda à espera que
me tragas
segurança, afeto, achego
e me estendas um pelego
e convide para sestear
E
aqui estou eu meu gaudério
em tempos de guerra e paz
sou aquela que te espera
sem saber se tu virás
Autor:
Odilon Ramos
Cemitério de Campanha
Cemitério de campanha,
Rebanho negro de cruzes,
Onde à noite estranhas
luzes
Fogoneiam tristemente;
Até o próprio
gado sente
No teu mistério profundo
Que és um pedaço
de mundo
Noutro mundo diferente.
Pouso
certo dos humanos
Fim de calvário terreno,
Onde o grande e o pequeno
Se irmanam num mundo só.
E onde os suspiros de dó
De nada significam
Porque em ti os viventes ficam
Diluídos no mesmo pó.
Até
o ar que tu respiras
Morno, tristonho e pesado,
Tem um cheiro de passado
Que foi e não volta
mais.
A tua voz, são os ais
Do vento choramingando
Eternamente rezando
Gauchescos funerais.
Coroas,
tocos de vela
De pavios enegrecidos
Que tem Terços mal
concorridos
Foram-se queimando a meio
Cruzes de aspecto feio
De alguém que viveu
penando
E depois de andar rolando
Retorna ao chão de
onde veio.
Mas
que importa a diferença
Entre urna cruz falquejada
E a tumba marmorizada
De quem viveu na opulência?
Que importa a cruz da indigência
A quem já não
vive mais,
Se somos todos iguais
Depois que finda a existência?
Que
importa a coroa fina
E a vela de esparmacete?
Se entre os varais do teu
brete
Nada mais tem importância?
Um patrão, um peão
de estãncia
Um doutor, uma donzela?
Tudo, tudo se nivela
Pela insignificãncia.
Por
isso quando me apeio
Num cemitério campeiro
Eu sempre rezo primeiro
Junto a cruz sem inscrição,
Pois na cruz feita a facão
Que terra a dentro se some
Vejo os gaúchos sem
nome
Que domaram este Chão.
E
compreendo, cemitério,
Que és a última
parada
Na indevassável estrada
Que ao além mundo conduz
E aqueces na mesma luz
Aqueles que não tiveram
E aqueles que não quiseram
No seu jazigo uma Cruz.
E
visito, de um por um,
No silêncio, triste
e calmo,
Desde a cruz de meio palmo
Ao irnais rico mausoléu,
Depois, botando o chapéu
Me afasto, pensando a esmo:
Será que alguém
fará o mesmo
Quando eu for tropear no Céu???
Autor:
Jayme Caetano Braun
Negrinho
do Pastoreio
Quando de noite transito
No meu gauderiar andejo,
Me paleteia o desejo
De encontrar-te, duende amigo,
Pois sei que trazes contigo,
Negrinho esmirrado e feio,
O Rio Grande em pastoreio
No sinuelo do passado,
E que ali, no descampado
Que a luz da vela clareia,
O teu vulto esguio, bombeia,
Como Deus de rito estranho,
A gauchada de antanho
Que se perdeu na peleia!
Juntos
iremos lembrar
Aquele maula estancieiro,
Que ao botar num formigueiro
O teu corpo de criança,
Cravou bem fundo uma lança
No próprio ser do rincão;
Trazer a recordação,
Aquela velha tropilha,
Que do topo da coxilha
Esparramou-se a lo léu,
Para juntar-se no céu
Contigo e Nossa Senhora,
E hoje cruza, noite a fora,
No meio dum fogaréu!
Hás
de contar-me o que viste
Na tua ronda infinita,
Desde a povoação
jesuíta
Ao reduto Guaiacurú,
Quando Sepé Tiaraju
Morrendo de lança em
punho,
Dava um guasca testemunho
Da fibra continentina,
E quando, nesta campina,
O velho pendão farrapo
Cruzava altaneiro e guapo
Como uma benção
divina!
Dizem
que trazes por diante
Dos fletes que pastorejas,
Assombrações
malfazejas
Das campanhas do JARAU,
Repontas o fogo mau,
Do andarengo BOITATÁ,
E vagando, ao Deus dará,
Nessa ronda de amargura,
Vives na eterna procura,
Pelas canchas e rodeios,
De prendas, trastes e arreios
Extraviados na planura!
Tu
conheces os segredos
De ranchos e cemitérios
Onde paisanos gaudérios
Assinalaram passagem,
Revives cada paragem
Numa evocação
singela,
Por entre tocos de vela
De humildes promessas pagas
Onde o S das adagas
Fazia o papel de cruz, -
E onde num raio de luz,
Brilhava sempre a velinha,
Invocando tu'a madrinha
A Santa Mãe de Jesus!
Presenciaste
o velho drama
Do gaúcho em formação,
Quando este imenso rincão
Era um selvagem deserto,
Tudo céu e campo aberto
E onde Deus Nosso Senhor
Pós o guasca peleador,
De lança e de boleadeira
E mandou fazer fronteira
Onde quisesse, a lo largo,
Dando o pingo, o mate-amargo
E a china pra companheira!
Por
tudo isso é que sofro
Quando altas horas despontas
Entre os fletes que repontas
Num barbaresco tropel,
Lembrando o dono cruel
Que num gesto asselvajado
Te fez cumprir este fado
De andar penando no ermo,
Esperando sempre o termo,
Que tarda tanto em chegar,
E onde haveremos de estar,
Enquadrilhados a grito
Diante do Deus infinito
Que vai por fim nos julgar!
E
assim como tu, Negrinho,
Que um dia foste espancado
E por fim martirizado
Num formigueiro do pago,
O meu peito de índio
vago
Também sofreu igual
sorte,
E hoje vagueia, sem norte,
Sem fugir, por mais que ande,
Deste formigueiro grande
Onde costumes malditos
Tentam matar aos pouquitos
As tradições
do RIO GRANDE!
Autor:
Jayme Caetano Braun
Mãe Velha
Cabelo era preto.
Que liso era o rosto!
Teu corpo era flor.
Cabelo
era preto.
mas hoje, Mãe Velha,
cabelo branquinho,
geada e agosto
que não levantou.
Que
liso era o rosto!
Agora,
Mãe Velha,
rosto enrugadinho
parece co'as frutas
que o tempo secou.
Teu
corpo era flor.
Mas hoje, Mãe Velha,
da flor, que ficou?
Só haste pendida
que a vida deixou.
A
cor do cabelo
passou pro vestido.
O
arado do pranto
no liso do corpo
que fundou que arou!
A
haste pendida
curavada pra terra,
e a terra reclama
o que falta da flor.
-
Papai foi pra guerra!
dizia o piá.
Mãe Velha era moça
no tempo que foi.
Mas
veio a notícia:
- Teu homem morreu,
de lenço encarnado
e de lança na mão.
E
os homens passavam
nos magros cavalos,
com barbas de mato,
com palas rasgados,
com pena da moça,
com raiva da guerra,
que mata um gaúcho
pra erguer um herói.
Mãe
Velha - era moça -
chorou muito choro
no seu avental!
Abriu o oratório
da sala do rancho,
rezou padre-nosso
por alma do homem
que a guerra levara
de lenço encarnado
e de lança na mão.
E
a Virgem Maria,
seu Filho nos braços,
olhava mãe moça
Mãe Velha ficar.
E a vida espiava
Mãe Velha viver:
-
madrugada na mangueira,
leite branco na caneca,
chaleira chia na chapa,
costume faz chimarrão.
Gamela, farinha branca,
forno aceso, sova pão,
charque magro na panela,
canjica, soca pilão,
manjericão na janela,
vassoura roda no chão...
E
a vida cobrava
tostão por tostão.
Mãe Velha, mais velha,
pagava pro tempo
a usura do dia.
Um sol que sumia
era mais um dobrão.
Piá
se fez homem.
Mãe Velha com medo
da revolução
Um dia, por fim,
piá foi s'embora
seguindo um clarim.
Mesminho que o pai:
de lenço encarnado
e de lança na mão.
Guria
cresceu.
Sobrou no vestido
da chita floreada
que a mãe lhe cozeu.
Depois... se perdeu.
Mãe
Velha chorando
o que a vida lhe fez,
no velho oratório
já reza por três.
A
noite tem fala
na boca da noite,
a vida é mudinha,
nem boca não tem.
Por
isso que a vida
ninguém não
entende,
Mãe Velha, ninguém.
A vida, Mãe Velha,
que é mãe e
mulher.
Autor:
Apparicio Silva Rillo
Alma Gaudéria
Os
rasteadores da História
campearam minha memória,
do tempo nas noites grandes,
e me encontraram na Taba,
nos araxás do ameraba
da cordilheira dos Andes!
Dos
séculos na densa bruma,
a minha origem se esfuma!
Sou alma xucra e gaudéria
que vem de tempos sem fim!
Ninguém sabe de onde
eu vim,
se de Atlântida ou Sibéria!
Talvez
fosse um lemuriano,
guardasse n'alma o arcano
da legendária Lemúria
-
minha primeira Querência,
tragada pela violência
de cataclismos em fúria!
Talvez
malaio, autraliano,
ou mongol, ou tasmaniano,
antes de vir para a América!
Sou, hoje, o guasca sulino
mestiço com beduíno
lá da Península
Ibérica!
Sou
mescla de vários sangues!
Dos temidos Caingangues
sinto a fibra em minha raça!
Destas coxilhas sou filho,
cruza de branco caudilho
com ameríndia lindaça!
Fui
Charrua e Minuano!
Enfrentei o lusitano
nos campos de Caiboaté!
Na região missioneira,
iluminei a fronteira
nas guerrilhas de Sepé!
Fui
guerreiro, andei lutando...
Surgi mil vezes peleando,
mil vezes tombei na guerra,
eternizando na história,
numa legenda de glória,
as tribos de minha Terra!
Marquei,
com sangue estrangeiro,
deste Torrão Brasileiro
as fronteiras que ele tem!
E nelas, qual marco vivo,
deixei meu sangue nativo,
as demarcando também!
E
se alguém, num dia
aziago,
quiser tomar este pago,
ser das coxilhas monarca,
há de sentir pelo lombo,
no impacto de cada tombo,
que nossa Terra tem marca!
Rui
Cardoso Nunes
Um
Canto Para Matear Solito
Quando o sol vai despacito
me quedo mateando quieto
no velho ritual campeiro
que faz ausentes de afeto
buscar refúgio no amargo,
vida verde, vida em pó
rico ancestral lenitivo
parceiro dos que andam só.
A
lua vem debruçar-se
no portal da solidão
em tênues raios de prata
clareando o velho galpão,
fresteando as paredes velhas
chegam as vozes da noite
que a meus ouvidos cansados
trazem sibilos de açoite.
A
cuia passeia inquieta
como se ave noturna
que risca olhos punhais
na ampla noite soturna,
só o chispar das labaredas
aos grilos em contracanto
compõe mais uma milonga
pra um mundo de desencantos.
O
mate desce queimando
na gargante ressequida
parece que nessa noite
nem Caá-Yari dá
guarida
a quem cansou do caminho
e de partir sem chegar
fez da vida uma tapera
na velha sina de andar.
Uma
saudade importuna
amarga mais esse mate
descompassa tanto o peito
que o coração
pouco bate,
aquerenciou-se essa louca
sem ter convite pra vir
que até nem sei se
é bom ter
saudade ou não pra
sentir.
Uma
inquietude interior
que faz a noite silente,
o sonho muito distante
como se estrela cadente,
me gusta um mate solito
nesse esperar não sei
que;
saber de andar o sentido
talvez, da vida o porquê.
Autor:
Moises Silveira de Menezes
Querências Amigas
Em
Rivera e Livramento
Pajadores lado a lado
Teu país e meu estado
Se unem no sentimento
Por saber que és atento
às coisas da natureza
Me responda com clareza
Do fundo do coração
O que viste em meu rincão
Que te mostrou mais beleza?
Su
Querencia és tan hermosa
Un derroche de beleza
Aquí la naturaleza
Fué pródiga
y generosa
las misiones és gloriosa
história curcificada
Su memória ensagrentada
le muestra el tiempo inmutable
como señal imborrable
A su tierra colorada.
Pago
de bons pajadores
Tua querência é
sensata
Da costa do Rio da Prata
Aos campos verdes e flores
Seus prédios e suas
cores
Encantam por todos lados
Rio dos passáros pintados
Campital Montevidéo
É linda, parece um
céu
De monumentos plantados.
Mencionando
monumentos
Es justo que uno le integre
Símbolo de Porto Alegre
Y de criollos sentimientos
Del bronce eterno los tientos
El tiempo fué trenzador
Caringi el gran escultor
Y el modelo Paixão
Côrtes
Darán honra a los aportes
Que hizo el gaucho El Lazador.
El
gaucho ou entrevero
La carreta e outros mais
Recuerdos de ancestrais
Bons heróicos pioneiros
Restando a nós, troveiros
Saudá-los neste momento
Já que a paz sopra
bom vento
Pro gaúcho ser folclórico
Lembro monumento histórico
Colônia do Sacramento.
Monumento
natural
El bosque petrificado
En el centro del estado
De siglos guarda un caudal
Y para um trago cordial
A la vera del camino
Halla todo peregrino
Que pase por esta tierra
Amistad gaucha en la sierra
De la uva e del buen vino.
Com
vinho quero brindar
às duas terras amigas
Heroicos Bento y Artigas
Respaldan nuestro cantar
Respiramos mesmo ar
Somos todos vencedores
Y con los mismos fervores
Eternamente encendidos
Que os povos sejam unidos
Como são os pajadores
Autor:
Paulo de Freitas Mendonça
e Jose Curbelo
Romance do Peão Guerreiro
O
rancho era um ninho de paz
perdido no verde do pampa.
Terêncio era um campeiro,
um taura
mais guapo que tronco de angico,
que vento minuano varrendo
coxilhas,
nas noites de invernia.
Nada
na vida lhe botava medo,
sua crença em Deus
o fazia grande,
saia lindo de qualquer enredo,
só não sabia,
com o sabe o João Barreiro,
que o melhor de tudo era o
calor do rancho.
Por
isso, quando a quietude dos
trevos
agitou-se com gritos de guerra,
guasqueando, no vento,
o pala do moço campeiro
sumiu pela estrada do poente.
Por
todos os cantos, cantos de
guerra,
tormentas de cascos, trompaços
de potros
e o batismo de fogo e sangue
que enrijece um vlente.
Terêncio um campeiro,
um taura!
Mas
a carga das lanças
trovejando nos campos,
borrava de sangue o branco
dos lenços.
Ferido e sangrando no orgulho
e na alma,
o moço guerreiro dá-lhe
rédeas ao flete
e retorna pro pago, pra prenda,
pro piá,
com aquele mesmo jeito simples
que o fez patrão de
si mesmo...
- Bueno, sem ser covarde,
valente, sem ser maleva!
Bem
diz o ditado... Em rancho
de pobre
A vontade dos outros é
a vontade da gente!
E,
antes mesmo que esvaziasse
a primeira chaleira de mate,
esbarra no oitão do
rancho
uma patrulha com voz de prisão...
- Desertor, covarde!
Terêncio
pisa miúdo, mas não
se enreda,
é cuera que não
cabresteia,
mania antiga de trançar
com gosto e jeito
os tentos da honra, para que,
depois,
ninguém diga que ele
fora covarde.
De
novo, a adaga manheira
rebilha na mão de Terêncio.
O terreiro do rancho um campo
de guerra,
tinidos de aço, fazendo
cadência,
barbarizam a destreza dos
machos.
Depois,
a tormenta que cessa
e os homens que foram valentes,
agora, tintos de sangue, estendidos
na terra,
jã não vivem
para os sonhos bonitos
que um dia sonharam.
Somente
o menino campeiro,
olhos molhados, tristonhos,
vai guardando, na memória,
os conselhos que o pai deixou...
-
Meu filho, não te esqueças
nunca,
que palavra de gaúcho
é que nem reza sagrada
e, um fio de bigode, vale
mais que juramento!
Isso, eu te deixo como herança
e, para guardá-la,
se preciso for,
eu estarei em ti, para pelear
de novo!
Desde
então, na Semana Farroupilha,
netos, bisnetos, tetranetos
desses homens
se perfilam para reverenciá-los.
Eles vestem bombachas, montam
a cavalo,
festejam e cantam...
-
Como aurora precursora do
farol da divindade,
foi o "Vinte de Setembro"
o precursor da liberdade!
José
Machado Leal
Romance do Gaúcho Velho
Solito
Quando
arranchei neste chão
empecei pelas mangueiras
com essas tronqueras que aí
'stão.
- Já mudei muitas madeiras
mas são as mesm'as
tronqueras
que do tempo aguentando vão.
Quando
a maior ficou pronta
veio um barrero mui ancho,
e empeçou a erguer
seu rancho
de uma tronquera na ponta.
Chegou
... Gostou do lugar.
Deixou de ser cruzador.
E, como eu, pegou na lida,
cada um cuidando sua vida
nenhum pedindo favor.
Porque êste rincão
convida
para ficar morador.
Eu
e êle, dois viventes,
dois tentos da mesma trama.
Eu com os braços, êle
com as asas,
cada um barreando a sua casa
tudo a capricho e de fama
nesta chapada campera.
A dêle - lá na
tronquera !
A minha - em riba da grama.
Êle
cantava em sobrado,
fachudo moço bonito
mudando pena em agôsto.
Eu ... chimarreava com gôsto
meu mate de índio solito.
Outubro
chegou, trazendo
promessas de nova era.
Êle avoou longe ...
E, na vinda,
trouxe uma amiga tão
linda
dourada de primavera.
É
bicho invejoso o homem!
No redomão Polvadera
me fui ... ! galope ... teatino
...
aventurando o destino
para campear companhera.
Achei...
Trouxe ela ... E empecei
a aquerenciar minha flor,
linda triguera paisana.
Mas no olhar de ressolana
tinha algo que não
engana
o tino de um domador ...
O
barrerito amoroso,
clareando o dia em verão
abria o bico e cantava.
Eu com a prenda chimarreava
sôbre o recosto do oitão.
Domei
... Tropiei ... Plantei muito...
Juntei plata, ... Mas despois
...
Cheguei de viage ... Era um
frio !
E achei o rancho vazio!
O rancho que eu fiz pra dois
...
E
o que eu passei... Ninguém
viu!
No pobre rancho vazio!
No rancho que eu fiz pra dois
...
E
o par de barreros?... Lindo!
Quanto mais o tempo andava
mais amizade sem fim!
Um do outro não se
esquecia.
Se não cantavam, se
via
que era por pena de mim!
Segui
mateando solito!
Quis tanto bem ... mal me
quis !
E
irei pensando até à
morte:
- Por que é que eu
não tive a sorte
do barrerito feliz?! ...
Autores:
Aureliano de Figueiredo Pinto,
dedicado a Eurípedes
Jobim de Oliveira
Galo de Rinha
Valente galo de rinha,
guasca vestido de penas!
Quando arrastas as chilenas
No tambor de um rinhedeiro,
No teu ímpeto guerreiro
Vejo um gaúcho avançando
Ensangüentado, peleando,
No calor do entreveiro !
Pois
assim como tu lutas
Frente a frente, peito nu.
Lutou também o chiru
Na conquista deste chão...
E como tu sem paixão
Em silêncio ferro a
ferro,
Cala sem dar um berro
De lança firme na mão!
Evoco
neste teu sangue
Que brota rubro e selvagem.
Respingando na serragem,
Do teu peito descoberto,
O guasca de campo aberto,
De poncho feito em frangalhos.
Quando riscava os atalhos
Do nosso destino incerto!
Deus
te deu , como ao gaúcho
Que jamais dobra o penacho,
Essa de altivez de índio
macho
Ques ostentas Já quando
pinto:
E a diferença que sinto
E que o guasca bem ou mal!
Só lutas por um ideal
E tu brigas pôr instinto!
Pôr
isso é que numa rinha
Eu comtigo sofro junto,
Ao te ver quase defunto.
De arrasto , quebrado e cego,
Como quem diz Não me
entrego:
Sou galo, morro e não
grito
Cumprindo o fado maldito
Que desde a casca eu carrego!
E
ao te ver morrer peleando
No teu destino cruel.
Sem dar nem pedir quarteu.
Rude gaúcho emplumado.
Meio triste , encabulado,
Mil vezes me perguntei
Pôr que é que
não me boleei
Pra morrer no teu costado?
Porque
na rinha da vida
Já me bastava um empate!
Pois cheguei no arremate
Batido , sem bico e torto
..
E só me resta o conforto
Como a ti, galo de rinha
Que se alguem me
dobrar - me a espinha
Há de ser depois de
morto!
- Autor:
Jayme Caetano Braun
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