|
A
Avó
A
avó, que tem oitenta
anos,
Está tão fraca
e velhinha! . . .
Teve tantos desenganos!
Ficou branquinha, branquinha,
Com os desgostos humanos.
Hoje,
na sua cadeira,
Repousa, pálida e fria,
Depois de tanta canseira:
E cochila todo o dia,
E cochila a noite inteira.
Às
vezes, porém, o bando
Dos netos invade a sala .
. .
Entram rindo e papagueando:
Este briga, aquele fala,
Aquele dança, pulando
. . .
A velha acorda sorrindo,
E a alegria a transfigura;
Seu rosto fica mais lindo,
Vendo tanta travessura,
E tanto barulho ouvindo.
Chama
os netos adorados,
Beija-os, e, tremulamente,
Passa os dedos engelhados,
Lentamente, lentamente,
Por seus cabelos, doirados.
Fica
mais moça, e palpita,
E recupera a memória,
Quando um dos netinhos grita:
"Ó vovó!
conte uma história!
Conte uma história
bonita!"
Então,
com frases pausadas,
Conta historias de quimeras,
Em que há palácios
de fadas,
E feiticeiras, e feras,
E princesas encantadas . .
.
E
os netinhos estremecem,
Os contos acompanhando,
E as travessuras esquecem,
— Até que, a
fronte inclinando
Sobre o seu colo, adormecem
. .
Autor:
Olavo Bilac
Pássaro Cativo
Armas, num galho de árvore,
o alçapão;
E, em breve, uma avezinha
descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe
então, por esplêndida
morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e
água fresca, e ovos,
e tudo:
Por que é que, tendo
tudo, há-de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?
É
que, criança, os pássaros
não falam.
Só gorgeando a sua
dor exalam,
Sem que os homens os possam
entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro
dizer:
"Não
quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que
procuro
Na mata livre em que a voar
me viste;
Tenho água fresca num
recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida
gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que
perdi . . .
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido,
e escondido
Entre os galhos das árvores
amigas . . .
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão
me obrigas?
Quero saudar as pompas do
arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas
cantigas!
Por que me prendes? Solta-me,
covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha
liberdade . . .
Quero voar! voar! . . ."
Estas cousas o pássaro
diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança,
tremeria,
Vendo tanta aflição
E a tua mão, tremendo,
lhe abriria
A porta da prisão .
. .
Autor:
Olavo Bilac
A Borboleta
Trazendo uma borboleta,
Volta Alfredo para casa.
Como é linda! é
toda preta,
Com listas douradas na asa.
Tonta,
nas mãos da criança,
Batendo as asas, num susto,
Quer fuguir, porfia, cansa,
E treme, e respira a custo.
Contente,
o menino grita:
"É a primeira
que apanho,
"Mamãe! vê
como é bonita!
"Que cores e que tamanho!
"Como
voava no mato!
"Vou sem demora pregá-la
"Por baixo do meu retrato,
"Numa parede da sala".
Mas
a mamãe, com carinho,
Lhe diz: "Que mal te
fazia,
"Meu filho, esse animalzinho,
"Que livre e alegre vivia?
"Solta
essa pobre coitada!
"Larga-lhe as asas, Alfredo!
"Vê com treme assustada
. . .
"Vê como treme
de medo . . .
"Para
sem pena espetá-la
"Numa parede, menino,
"É necessário
matá-la:
"Queres ser um assassino?"
Pensa
Alfredo . . . E, de repente,
Solta a borboleta . . . E
ela
Abre as asas livremente,
E foge pela janela.
"Assim,
meu filho! perdeste
"A borboleta dourada,
"Porém na estima
cresceste
"De tua mãe adorada
. . .
"Que cada um cumpra sua
sorte
"Das mãos de Deus
recebida:
"Pois só pode
dar a Morte
"Aquele que dá
a Vida!"
Autor:
Olavo Bilac
A arca de Noé
Sete
em cores, de repente
O arco-íris se desata
Na água límpida
e contente
Do ribeirinho da mata.
O
sol, ao véu transparente
Da chuva de ouro e de prata
Resplandece resplendente
No céu, no chão,
na cascata.
E
abre-se a porta da Arca
De par em par: surgem francas
A alegria e as barbas brancas
Do prudente patriarca
Noé,
o inventor da uva
E que, por justo e temente
Jeová, clementemente
Salvou da praga da chuva.
Tão
verde se alteia a serra
Pelas planuras vizinhas
Que diz Noé: "Boa
terra
Para plantar minhas vinhas!"
E
sai levando a família
A ver; enquanto, em bonança
Colorida maravilha
Brilha o arco da aliança.
Ora
vai, na porta aberta
De repente, vacilante
Surge lenta, longa e incerta
Uma tromba de elefante.
E
logo após, no buraco
De uma janela, aparece
Uma cara de macaco
Que espia e desaparece.
Enquanto, entre as altas vigas
Das janelinhas do sótão
Duas girafas amigas
De fora a cabeça botam.
Grita
uma arara, e se escuta
De dentro um miado e um zurro
Late um cachorro em disputa
Com um gato, escouceia um
burro.
A
Arca desconjuntada
Parece que vai ruir
Aos pulos da bicharada
Toda querendo sair.
Vai!
Não vai! Quem vai primeiro?
As aves, por mais espertas
Saem voando ligeiro
Pelas janelas abertas.
Enquanto,
em grande atropelo
Junto à porta de saída
Lutam os bichos de pelo
Pela terra prometida.
"Os
bosques são todos meus!"
Ruge soberbo o leão
"Também sou filho
de Deus!"
Um protesta; e o tigre —
"Não!"
Afinal,
e não sem custo
Em longa fila, aos casais
Uns com raiva, outros com
susto
Vão saindo os animais.
Os
maiores vêm à
frente
Trazendo a cabeça erguida
E os fracos, humildemente
Vêm atrás, como
na vida.
Conduzidos
por Noé
Ei-los em terra benquista
Que passam, passam até
Onde a vista não avista
Na
serra o arco-íris se
esvai . . .
E . . . desde que houve essa
história
Quando o véu da noite
cai
Na terra, e os astros em glória
Enchem
o céu de seus caprichos
É doce ouvir na calada
A fala mansa dos bichos
Na terra repovoada.
Autor:
Vinicius de Moraes
A foca
Quer ver a foca
Ficar feliz?
É por uma bola
No seu nariz.
Quer
ver a foca
Bater palminha?
É dar a ela
Uma sardinha.
Quer
ver a foca
Fazer uma briga?
É espetar ela
Bem na barriga!
Autor:
Vinicius de Moraes
As abelhas
A AAAAAAAbelha mestra
E aaaaaaas abelhinhas
Estão tooooooodas prontinhas
Pra iiiiiiir para a festa.
Num zune que zune
Lá vão pro jardim
Brincar com a cravina
Valsar com o jasmim.
Da rosa pro cravo
Do cravo pra rosa
Da rosa pro favo
Volta pro cravo.
Venham ver como dão
mel
As abelhinhas do céu!
Autor:
Vinicius de Moraes
A
cachorrinha
Mas que amor de cachorrinha!
Mas que amor de cachorrinha!
Pode
haver coisa no mundo
Mais branca, mais bonitinha
Do que a tua barriguinha
Crivada de mamiquinha?
Pode haver coisa no mundo
Mais travessa, mais tontinha
Que esse amor de cachorrinha
Quando vem fazer festinha
Remexendo a traseirinha?
Autor:
Vinicius de Moraes
O peru
Glu!
Glu! Glu!
Abram alas pro Peru!
O Peru foi a passeio
Pensando que era pavão
Tico-tico riu-se tanto
Que morreu de congestão.
O
Peru dança de roda
Numa roda de carvão
Quando acaba fica tonto
De quase cair no chão.
O
Peru se viu um dia
Nas águas do ribeirão
Foi-se olhando foi dizendo
Que beleza de pavão!
Glu!
Glu! Glu!
Abram alas pro Peru!
Autor: Vinicius de Moraes
O gato
Com um lindo salto
Lesto e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pega corre
Bem de mansinho
Atrás de um pobre
De um passarinho
Súbito, pára
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
E quando tudo
Se lhe fatiga
Toma o seu banho
Passando a língua
Pela barriga.
Autor:
Vinicius de Moraes
As borboletas
Brancas
Azuis
Amarelas
E pretas
Brincam
Na luz
As belas
Borboletas
Borboletas brancas
São alegres e francas.
Borboletas azuis
Gostam muito de luz.
As amarelinhas
São tão bonitinhas!
E as pretas, então
. . .
Oh, que escuridão!
Autor:
Vinicius de Moraes
Sonhos de uma criança
Na
minha infância
Vivi como aprendiz
Assim como toda criança
Aprontei muito e fui feliz.
Feliz, como criança
pobre,
Porém, com o coração
nobre.
Não linha lazer, nem
escola,
Nem tão pouco, comida
na sacola.
A fartura que eu tinha,
Era sonhos de vencer,
Carinho, afeto e atenção
Que meus pais me ofereciam
de coração.
No
meio da natureza
Em uma caiçara morei.
Apesar de toda sua beleza
Era um lugar muito esquisito.
Lembro-me de ouvir o cantar
dos mosquitos.
E, também, de ver como
era bonito
O barulhos dos passarinhos.
Muitas vezes, assustados,
Acuados nos seus ninhos.
Vivendo
à beira da sorte,
E devido tantas coisas
Que não sabia entender.
Tinha medo da morte
E não sabia o porquê.
Hoje,
entendi
Que existe muita esperança
Nos sonhos de uma criança
E, que esta esperança
Se transforma em força
viva
Que nos faz crescer,
Sonhar, viver e aprender.
Autor:
Maria Dionésia Santos
da Silva
Menina de Luz
No
túnel do tempo
Os arranjos a rondar
Em um mundo a rodar
Na dor do momento
É
hora de pensar
Os novos arranjos
Ou então mais anjos
O preço a pagar
Qual
o defeito?
Da imantação
Em combinação
Que não vai fechar
Sofre
a menina
De uma, psicologia assombrada
Duma ligação
quebrada
De sonhos caídos
O
Íntimo do ser
Que não vai untar
Uma união que não
une
Que teima em quebrar
Quem
acredita chora
Não tem simplicidade
O psicológico arrasado
E o mundo evapora
Um anjinho subindo
Um mundo sumindo
Não tem mais amor
Cuidai
senhor!
Da mártir da hipocrisia
Da força doentia
De um amor enganador
Subiste
ao céu
È o seu atesto
Um mundo desonesto
Rasgaste o véu
Derramai
leite e mel
Nesta sociedade
Lama da maldade
O gosto do fel.
Foste
o exemplo
Já se viu o fracasso
A fragilidade do aço
Da mente doentia
Foste sadia,
Sábia revelação
Da falsa união
Revelaste a hipocrisia.
Autor:
Luiz Domingos de Luna
Moleca
Moleca
melada
Sapeca safada
Levada da breca
Que tira meleca
Eca moleca sem mestra virada
Rueira, só pensa em
zueira
Só come besteira
Moleca que trepa no muro no
escuro
Dá duro dá mole
a barriga de embrulho
Que furo o futuro, criança
de engulho
Surgida do cedo do enrêdo
do muro
Moleca sem crisma, batismo,
sem casa
Sem reza, sem cacho, sem tempo,
sem graça
Moleca sinistra sem prazo,
sem vista
Que dorme na pista do bicho
papão
Moleca sem festa, sem beca,
sem chão
Sem fada, sem nada
Cuidado!
A calçada te pega e
te leva!
Autor:
Ivone Torres
Dizer que Te Amo
Ei
você.
É você mesmo,
que sempre anda com a cabeça
tão ocupada com preocupações.
Vou te fazer um pedido e não
quero ouvir um não.
Pare somente um pouquinho
e preste muita atenção,
escute o bater do seu coração.
Parece que ele faz: TUM, TUM,
TUM,
mas não, ele fala:
Família, família,
família.
Naquele cantinho onde o seu
coração esconde
o amor,
é onde normalmente
eu estou.
Perceba a minha presença,
arranje tempo para mim.
Se você fizer assim,
juro que eu não mais
reclamo.
Se você fizer assim,
vai me ouvir dizer:
EU TE AMO.
Autor:
Ademir Santana Silva
O leão
Leão! Leão!
Leão!
Rugindo como um trovão
Deu um pulo, e era uma vez
Um cabritinho montês.
Leão!
Leão! Leão!
És o rei da criação!
Tua
goela é uma fornalha
Teu salto, uma labareda
Tua garra, uma navalha
Cortando a presa na queda.
Leão
longe, leão perto
Nas areias do deserto.
Leão alto, sobranceiro
Junto do despenhadeiro.
Leão na caça
diurna
Saindo a correr da furna.
Leão! Leão!
Leão!
Foi Deus que te fez ou não?
O
salto do tigre é rápido
Como o raio; mas não
há
Tigre no mundo que escape
Do salto que o Leão
dá.
Não conheço
quem defronte
O feroz rinoceronte.
Pois bem, se ele vê
o Leão
Foge como um furacão.
Leão
se esgueirando, à espera
Da passagem de outra fera
. . .
Vem o tigre; como um dardo
Cai-lhe em cima o leopardo
E enquanto brigam, tranqüilo
O leão fica olhando
aquilo.
Quando se cansam, o Leão
Mata um com cada mão.
Leão!
Leão! Leão!
És o rei da criação
Autor:
Vinicius de Moraes
|